Haiti - desolação - precisando de um recomeço
Olá a todos
Tive a possibilidade e privilégio de ir ao Haiti, uma nação que desde 1770 tem tido abalos, tornados, enchentes e em setenta anos, vinte e duas mudanças de governo. Seu moto principal escrito em sua bandeira é o conhecido: “A união faz a força”; sua população tem 72,1% do povo vivendo com menos de US 2 por dia com casas pobres e mal-construídas aglomeradas em favelas de alvenaria de má qualidade que agora se tornaram entulho e foram substituídas por tendas. Já em 2008, depois de três tornados e uma tempestade tropical que matou 800 pessoas, o presidente Preval dizia que o Haiti necessitava um auxílio de longo prazo senão seria “deixado como sempre, verdadeiramente só, para enfrentar novas catástrofes”.
Na semana passada estivemos ali por quatro dias como “preparadores do caminho” para mais uma equipe do projeto MAIS - Missão em Apoio a Igreja Sofredora (http://maisnomundo.org/) - coordenado pelo Pr Mario Freitas (3a.Igreja Presbiteriana de BH). Este é um projeto interdenominacional de ajuda humanitaria e espiritual. Comigo estava Marcus Thieme, companheiro de luta há muitos anos. Marcus tem sido estratégico dentro da visão deste projeto e também de um documentário que Alyson e Allan Montrezol da Praia Grande e meu filho Matheus tem desenvolvido tendo em vista alcançar pessoas que sintam o desafio e resolvam participar da reconstrução dessa nação.
Com algum convívio no país e conversas com os que estiveram lá mais vezes ou por mais tempo que eu, também descobrí que há ricos no Haiti. Alguns estão lá e outros se foram para os Estados Unidos. Então o que descrevo adiante fala dos bairros pobres e mais abalados com o terremoto, embora no país existam casas ricas, grandes (as que conseguiram sobreviver ao abalo gigante), mansões mesmo, cultura, restaurantes, música, etc, que não vi, mas soube que estão presentes mesmo no meio da desolação de 70% do país, pelo menos.
Conheci o Pr Vijonet Demero que é pastor da Eglise Evangelique de la Bonna Nouvelle. Ele tem sido um dos “Neemias” estratégicos daquela terra. Ele perdeu o prédio da igreja com o terremoto, então o terreno e a frente de sua casa tornaram-se o “prédio”, o dormitório (a noite), a sala de estar (durante o dia), refeitório, etc… Homem de Deus, pastor do seu povo, sendo sempre o último a dormir depois que tudo estava em ordem na casa/igreja. Pr Demero foi meu tradutor do inglês para o criolo, uma versão dialética do francês, que também é falado alí.
Na Eglise Baptiste des Rachetés, onde estivemos no culto de domingo, que se iniciou às 6:30 da manhã (saí de lá às dez e ainda não tinha terminado) pude pregar para irmãos ávidos pela palavra de Deus, mas reunidos na rua - sim isso mesmo. As fotos que coloquei mostram o lugar na entrada do prédio da igreja onde ficamos, eu e Demero, e o povo do mesmo lado da calçada e do lado oposto recebendo a mensagem, acompanhando atentamente o culto enquanto alguns carros passavam entre eles e nós…a igreja estava se reunindo na rua pelo risco do prédio desmoronar por causa das rachaduras.
Estivemos também na Eglise Evangélique Chrétienne onde o louvor e adoração vem do coração de pessoas que vão adorar a Deus juntos naquele lugar, sairão de lá depois sem casa para ir, sem emprego para trabalhar no dia seguinte, talvez sem comida para comer…provavelmente indo para sua tenda, se tiverem uma, cujo “endereço” pode ser um dos parques centrais da cidade de Porto Príncipe.
Aprendí: adoração verdadeira vem de lábios necessitados e totalmente confiados no Pai de amor, em fé e segurança no único que pode realmente nos ajudar em toda situação. Principalmente quando saio do culto sem saber o que irei comer depois…
Visitei uma mãe que perdeu o filho universitário no terremoto de 12 de janeiro; uma intercessora que não deixou de ir todas as manhãs daquela semana fatídica a casa de Deus para orar com os irmãos, mesmo com a sua perda irreparável que só Deus pode consolar. Dormimos todos (sem excessão) na entrada da casa do pastor ao relento. Por ordem do governo, para segurança, eles não podem dormir dentro das casas…difícil ver um homem de Deus com toda sua família (esposa e três crianças) dormindo na entrada da casa, com alguns irmãos que não tem para onde ir também, e onde nós, os que alí estivemos, também tivemos o privilégio de participar da mesma situação como irmãos em Cristo. Na última noite houve alguma chuva e os mosquitos eram bem pontuais próximo ao amanhecer, na sua visitação matinal. Creio que todo cristão deveria ter uma experiência dessas na vida para “baixar a bola” um pouco; para ser mais simples, mais grato, menos reclamador, menos ufanista, com menos campanhas milionárias para programas de televisão e mais ajuda a Santa Catarina, Rio de Janeiro, Maranhão, Piauí, etc,etc …mais dependente, menos juíz e mais companheiro…lembrei-me de uma canção do Daniel de Souza que fala sobre sermos as mãos de Jesus, o olhar de Jesus, a boca de Jesus por onde andarmos, pois, “quando a um destes pequeninos o fizestes, a mim o fizestes”.
Gerson
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